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Importar-se demais. Essa é a maldição das classes trabalhadoras Comentários desativados em Importar-se demais. Essa é a maldição das classes trabalhadoras

Importar-se demais. Essa é a maldição das classes trabalhadoras

Posted by on mar 30, 2014 in Revista

Por que a lógica básica da austeridade foi aceita por todo mundo? Porque a solidariedade passou a representar um flagelo É uma boa pergunta. Você imaginaria que um governo que provocou tanto sofrimento àqueles com menos condições de resistir, sem ao menos mudar os rumos da economia, correria risco de suicídio político. Em vez disso, a lógica básica da austeridade foi aceita por quase todo mundo. Por quê? Por que políticos que prometem sofrimento prolongado ganham qualquer condescendência da classe trabalhadora, pra não falar em apoio? Acredito que a própria incredulidade com a qual comecei fornece uma resposta parcial. Os trabalhadores podem ser, como incessantemente nos lembram, menos meticulosos com assuntos de lei e propriedade que seus “superiores”, mas eles também são muito menos obcecados consigo mesmos. Eles se importam mais com seus amigos, famílias e comunidades. No conjunto, ao menos, são pessoas fundamentalmente melhores. Em certa medida isso parece refletir uma lei sociológica universal. Há muito as feministas apontam que aqueles que estão na parte de baixo de qualquer arranjo social desigual tendem a pensar mais sobre, e portanto importar-se mais com, aqueles no topo do que os do topo em relação a eles. As mulheres em toda parte tendem a pensar e saber mais sobre as vidas...

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“Índio é nós”: Motivos para a mobilização em prol dos direitos e das terras dos povos indígenas Comentários desativados em “Índio é nós”: Motivos para a mobilização em prol dos direitos e das terras dos povos indígenas

“Índio é nós”: Motivos para a mobilização em prol dos direitos e das terras dos povos indígenas

Posted by on mar 29, 2014 in Indígenas, Revista

1. “Por trás desta baderna”: a incitação ao ódio, ou o que se chama de ordem Durante a presente gestão federal, em que a aliança estratégica com os ruralistas tornou-se política pública, acirraram-se os ataques contra os povos indígenas no Brasil. Os assassinatos de índios e invasão de terras indígenas conjugaram-se à paralisação da demarcação de terras indígenas, ao trâmite e à aprovação de projetos anti-indígenas no Congresso Nacional, a decisões etnocidas do Supremo Tribunal Federal, e à incitação à violência contra esses povos por políticos e por meios de comunicação. Para este breve texto, basta evocar um recente exemplo e sua reincidência: ninguém menos do que o coordenador da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional, o deputado federal Luiz Carlos Heinze (PP-RS), foi flagrado em dois vídeos, gravados no fim de 2013, incitando o ódio contra os índios e outras minorias. Em Vicente Dutra, no Rio Grande do Sul, o parlamentar atacou o Secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, encarregado da articulação entre governo federal e movimentos sociais. Tratava-se de audiência pública da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados sobre a demarcação de terras indígenas, com produtores rurais, em 29 de novembro de 20131. Heinze afirmou que “O Gilberto Carvalho também é ministro da presidenta Dilma. É ali que...

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As multidões sem rosto Comentários desativados em As multidões sem rosto

As multidões sem rosto

Posted by on fev 20, 2014 in Revista

“[…] se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino […]”. Deleuze e Guattari “O rosto é uma política”, diziam Deleuze e Guattari. Nas formações sociais ocidentais modernas e contemporâneas, o Estado implanta uma máquina de rostificar ao lado do corpo social; máquina que se apodera dele, que o rostifica inteiramente, reduz corpos a rostos, singularidades a identidades. O rosto é, sobretudo, o análogo, no corpo, da divisão entre sociedade e Estado. O rosto aliena a potência de um corpo da mesma forma como o Estado aliena o poder do corpo social – poder que as marchas das ruas nos fizeram redescobrir no mais profundo de nós mesmos. Segundo essa divisão, o corpo deve confinar-se ao privado; o rosto, porém, pertence ao público. Da mesma forma, a impotência remete ao privado (corpo inerme, rostificado), e o poder, ao Estado, que deseja eclipsar nas suas instituições a totalidade do espaço público, que permanece, como as ruas o provam, aberto, irredutível por definição, e jamais exclusivamente discursivo. Se, no espaço público, pudesse haver redução entre palavra e gesto, a palavra é que reconduziria ao gesto ou à ação. Pensar o contrário é, já, sintoma da eficácia dos...

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Everybody knows that our cities were built to be destroyed Comentários desativados em Everybody knows that our cities were built to be destroyed

Everybody knows that our cities were built to be destroyed

Posted by on jan 29, 2014 in Revista

“We had the experience, but missed the meaning” T.S. Eliot                 Todo mundo sabe que nas instâncias celestes existe uma ordem incorruptível que governa o movimento das esferas e que assegura a aparição das estrelas e constelações de acordo com as cartas astrais que costumavam vir na última página dos nossos mais que interessantes catálogos mensais de curiosidades. Era certa a correspondência; elas, as estrelas e as constelações, estavam lá; mas, derrotadas pelas nebulosas da luz elétrica e das partículas em suspensão no ar, apareciam para olhos que não as podiam ver. O fato, entretanto, era trivial demais para que nos preocupássemos: tínhamos os mapas e a representação do imutável garantia-nos o cosmo. Perdemos a experiência, mas tínhamos o sentido. Tudo se manteria tal e qual até segunda e apocalíptica ordem. De repente, quando soaram as trombetas, descobrimos que o anticristo não tinha vinte centavos para a passagem do ônibus, andava a pé e cobria o rosto, era lerdo para desviar da bala de borracha e vulnerável ao gás lacrimogêneo. E que, demasiado humano para intervir no teatro celestial, restava ao pobre diabo vitimar esse sucedâneo cósmico chamado vidraça. Não importa, tivemos a experiência, mas mantivemos o velho sentido: com deus já morto, este era o apocalipse que nos...

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