Contra a capitulação. Uma resposta a Safatle

por Franciel Cruz
Escracho feito pelo Levante Popular da Juventudeno dia 1º. Foto: vice.com

Escracho realizado pelo Levante Popular da Juventude no dia 1º de abril. Foto: vice.com

 

Para além dos cinismos, falsos arrependimentos ou até mesmo das reafirmações de fé  retrógradas, os editoriais dos jornalões nestes 50 anos de Golpe nos deixam um claro aviso: o jogo está sendo jogado.

O primeiro sinal de disputa, e a princípio o mais evidente, é que todos eles escolheram o 31 de março – e não o verídico 1º de abril – como a data em que se consumou a quartelada. No dia da mentira, data em que efetivamente o nefasto regime sagrou-se vitorioso, o noticiário sobre o tema foi escasso. Esta tática, inclusive, atingiu o auge ao meio-dia de ontem no UOL. Neste horário, das 56 manchetes de toda a capa do portal, apenas uma possuía relação com a ditadura. E, mesmo assim, um breve relato factual sobre uma manifestação realizada por estudantes. O resto do noticiário era o velho uso da tergiversação enquanto apologia à desmemória.

Eles sabem que o jogo está sendo jogado.

Aliás, por mais paradoxal que possa parecer, até mesmo os que confessaram o “erro” no apoio à ditadura, como foi o caso d’O Globo, apelaram ao artifício do “contextualismo autoritário”, como bem definiu o historiador Sílvio Pedrosa: “O GLOBO não tem dúvidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país”.  Por conta de trechos assim no texto do jornal carioca, o historiador afirma que “o que se anunciava como a confissão de um erro, através do condão da Historia e da mágica do contextualismo transforma-se, diante dos olhos incrédulos de qualquer leitor atento, numa justificação contextualizada do golpe de 1964, que, entendido nos seus termos, teria sido a ‘atitude certa’! ‘(…) os homens e as instituições que viveram 1964 são história, passado, devendo ser entendidos nessa perspectiva”’.

Pois muito bem, digo, pois muito mal. Com uma tintura diferente aqui ou ali, o que todos eles fazem é esta ode ao esquecimento, apelando ao surrado recurso de que é necessário virar a página.

O jogo deles, que ainda está sendo jogado, é este.

Por falar em virar a página, cabe voltar a FHC, primeiro presidente eleito que não tinha vínculo com a Arena, partido de sustentação ao regime (os anteriores foram Sarney e Collor. Itamar assumiu após o impeachment deste último – e não pelo voto). Em entrevista ao repórter Guilherme Balza publicada no mesmo UOL, no último dia 30, ele afirmou que não levou adiante a Comissão da Verdade porque conversou com as pessoas (invisíveis, sem nomes) e “o que me diziam é que não tinha dado nenhum”.

Tão fajuto argumento, FHC já havia utilizado há cerca de uma década, quando estava no poder. E foi motivo de chacota numa crônica de Luís Fernando Veríssimo no dia 18 de julho de 1995: Numa entrevista à TVCom, da RBS do Rio Grande do Sul, o Éfe Agá disse que queria me ver no seu lugar para tratar dos desaparecidos, já que não existem documentos, indícios ou provas nas Forças Armadas ou em qualquer órgão do governo sobre eles. (…) Só tem uma coisa, presidente. Indícios sobre os desaparecidos existem muitos, e a falta de documentos e provas é que pede uma determinação executiva. Com documentos e provas até eu.

Apesar da clara opção de apostar no esquecimento, Fernando Henrique preferiu se refugiar em uma suposta “falta de dados”. Agora, a atual presidente Dilma Rousseff, vítima do infame regime, não busca nem subterfúgios e diz claramente a seguinte barbaridade: “Assim como reverencio os que lutaram pela democracia, também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.

Que pacto? Não houve pacto político algum. Havia, em 1979, e ainda hoje, a disputa dos que lutam para punir os atos de barbárie e os que apostam no esquecimento e o “valorizam”.

O jogo está sendo jogado.

Depois de todos estes prolegômenos, alguém mais apressado pode achar que estou dando toda razão à tese de Vladimir Safatle de que “A ditadura venceu“. Porém, o inverso é o verdadeiro. Apesar de o referido ter feito contundentes críticas contra o ancien régime, com as quais concordo, ele acaba por consolidar esta nefasta versão de que é preciso virar a página ao conjugar o verbo no passado.

E mais, ao levar o debate para os governos recentes, culpando-os, com certa justiça, esquece e escanteia um ator fundamental: a (mal) dita sociedade civil, o povo. Tudo, em seu artigo, é só lamentação, choro e ranger de dentes.

É óbvio que a crítica é necessária, mas Safatle leva-a a um paroxismo tal que nos empurra para uma inevitável sensação de derrota. É isso. O problema mais grave do artigo de Safatle é que ele esquece os avanços conquistados pela força da pressão social e, com seu derrotismo irrestrito, acaba por corromper até mesmo aquela velha sentença do músico e escritor francês Romain Rolland, citada por Antonio Gramsci: “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. A análise dele é tão pessimista que sufoca até mesmo a possibilidade de otimismo da ação.

No referido artigo, Safatle é só derrota, ampla geral e irrestrita. Conjuga o verbo no passado, diz que a ditadura venceu, como se não existisse mais probabilidade de reverter nada.

Menos, amigo, muito menos. Não é nem preciso colocar os óculos de Dr. Pangloss para perceber que esta constatação é falsa e reducionista. Ontem mesmo Samuel Barbosa já esboçou uma resposta enumerando uma série de fatos para mostrar os avanços, destacando que “não é trivial a mudança de significado da memória acerca da ditadura que já ocorreu pelo trabalho da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos, pela Comissão da Anistia, pela Comissão da Verdade”. O problema da argumentação de Barbosa é que ele termina o texto de modo quase acrítico, afirmando que a ditadura não venceu.

Porém, acho que nem chicho nem franchico. Se é fato que a ditadura não é completamente vitoriosa, como propaga Safatle, também está claro que ela ainda não foi derrotada totalmente.

O jogo está sendo jogado.

E se, como bem afirmou o jurista Fábio Konder Comparato em abalizado artigo sobre o Golpe, “é deplorável constatar que o nosso país é o único na América Latina a continuar sustentando a validade de uma auto-anistia decretada pelos militares que deixaram o poder”, também não deixa de ser um alento perceber que, para citar um exemplo, nos últimos três anos já houve uma mudança da opinião pública em relação à anistia. Em 2010, 45% eram contra e 40% a favor. Agora, 46% defendem castigo aos torturadores e 41% são contra.

Já ia inclusive terminar estes rabiscos quando surgiram dois fatos que mostram que o jogo ainda está sendo jogado. Na noite de ontem, o planalto lançou uma nota sinalizando um recuo, ou melhor, um pequeno avanço, em relação à posição presidencial sobre a revisão da anistia. Disse que o governo não vai propor porque é tarefa do Congresso Nacional, mas que não vai interditar o debate. 

O jogo está sendo jogado. 

Outro dado, talvez até mais simbólico, apesar de ainda tímido, foi que as forças armadas, pela primeira vez, reconheceram formalmente a possibilidade da existência das torturas e mortes nas instalações militares e se comprometeram a investigar os nefastos atos.  

Cabe, portanto, a todos os que acham que o jogo ainda não terminou, continuar a pressionar os juízes e os jogadores por mais avanços. Nestas voltas cruciais do ponteiro do relógio, o pior caminho é decretar a vitória do oponente. Afinal de contas, não tem cabimento entregar a partida no segundo tempo.  A única página que temos que virar é a da capitulação. É hora de continuar gritando contra a referida, independentemente de onde ela venha.

 

Franciel Cruz

Franciel Cruz é um burrocrata quase feliz e torcedor do Vitória, assim como Marighella



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