Nota sobre a subsistência

por Rondinelly G Medeiros

O Nordeste é uma invenção, o Semiárido é uma irrupção. O problema chamado de “seca” não é outro senão o problema que o “natural” representa para o processo colonizador. Além disso, “seca” é o nome de um fenômeno político de dominação que vomita sua condição na culpa de Deus ou da Natureza. Por que será que as plantas do sertão lidam tão bem com a seca, guardam a água, tiram as roupas e voltam a vesti-la só na festa da chuva? E por que será que assim como os antigos tamoios, os sertanejos (os homens que a colonização largou aqui) também sabem lidar com a seca? Dá pra ver, desde os primeiros relatos imperiais de seca (séc. XVIII), que ela ameaça nem a natureza nem o sertanejo, mas a Colonização.

 

Ilustração: Lívia Carvalho

Ilustração: Lívia Carvalho

 

O Colonizador (Europa e Sudeste) fez de tudo pra que desistíssemos da subsistência. Diziam que subsistência é miséria: só o Lucro salva.

O primeiro pseudônimo da Colonização foi Civilização. Depois, o apelido foi Progresso. Hoje o nickname da Colonização é Desenvolvimento. O semiárido foi, primeiro, sobrecolonizado: não servia senão pra dar carne ao engenho litorâneo que por sua vez servia pra dar açúcar à Metrópole. A segunda investida colonizadora foi a Revolução Verde e Produtivista da década de 70: irrigação, agrotóxicos, latifúndios, agronegócio. Então, não que sejamos apenas “desterrados em nossa própria terra”. Pelo projeto colonizador, a própria terra deveria estar desterrada de si mesma. A terceira bandeira, neste momento, é a do hidronegócio – do milionário negócio das cisternas de plástico, da transposição mortal do rio São Francisco para a indústria do camarão de cativeiro e das culturas irrigadas e intoxicadas. Oficialmente a transposição é denominada integração de bacias. É liderada por um ministério: o da Integração Nacional. “Integração” parece ser a arma vocabular da vez do projeto colonizador, para barrar, em nome de um devastador interesse nacional, a história subterrânea dos povos do semiárido e de sua capacidade indígena de conviver de forma dinâmica com o seu lugar. É àquele projeto que o sertanejo resiste – não ao seu lugar.

 

Rondinelly G Medeiros

Rondinelly é de São Mamede/Patos – Paraíba



http://twitter.com/rondinellysm

 

Este texto tem origem numa sequência de postagens no twitter compilada por Idelber Avelar